quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sobre a minha infância

Meu amigo leitor, muito obrigado pela "carona" que você me dá no seu computador. Durante essa leitura vamos conversar e lhe conto o que me aconteceu.
Fui um menino sem pai e sem mãe. Vivi quase sem ninguém. Depois de brigas houve a separação. Mamãe foi embora num caixão. Disso eu me lembro muito bem.
Com apenas 9 anos começou meu sofrimento. A escola onde eu estudava ficava a 8 km de distância de casa. Tinha que atravessar pastagens com cavalos e bois. Meu pai tinha uma bicicleta, mas mesmo assim, me fazia ir à pé. Eu tinha hora marcada para estar em casa. Se atrasasse a surra era certa.
Após 7 meses da morte de minha mãe, meu pai casou-se novamente. Tudo piorou depois disso, pois qualquer motivo era desculpa para me bater. Aguentei por mais dois anos e fugi de casa com apenas 11 anos.
Cheguei a uma fazenda de café a 30 km dali e pedi para trabalhar e por ali ficar. O dono me perguntou se eu queria trabalhar ou me esconder. Ele já sabia o motivo de eu estar ali. Disse que sabia como o meu pai era e que eu poderia ficar, que ali ninguém iria me bater e que eu também teria meu salário.

domingo, 20 de junho de 2010


Eu não disse a vocês que a vida é cheia de surpresas? Eu, aos 42 anos, nunca pensei que fosse capaz de abalar corações de jovens e adolescentes, como aconteceu na semana passada. Recebi a visita de cerca de 20 alunos. E eu, coração mole, chorei de emoção e felicidade. Ao olhar ao meu redor percebi que não era o único. Muitos deles choraram também. Foi um momento maravilhoso, especial pra mim.

Aí entendi porque Deus me deixou aqui nessa cama. Para levar a mais pura realidade da vida, que não é como pensamos. A vida não é um arco-íris. Não é como desenhá-lo num papel e pintar cada cor tendo a certeza de que serão sempre aquelas.
Cama amiga, na qual escrevo deitado. Porém, um homem magoado que ainda irá se levantar. Minhas palavras são forças que vêm lá de dentro. Apesar de todo sofrimento ainda não perdi a fé
Cama amiga, se não existisse seria ainda mais triste meu longo caminho. Te agradeço contra minha vontade, pois na realidade eu gostaria de estar andando por aí. Sentar em uma mesa para levar através de minhas palavras aos meus amigos leitores coisas felizes e não dizeres tristes.
Mas sou feliz mesmo assim. Hoje sei que quem me ama de verdade me dá forças para vencer. Um só soldado não vence a guerra, não é mesmo?

domingo, 13 de junho de 2010

Quando eu morrer não diga que foi a doença que me matou, foi Jesus que me chamou. Tenho noites amargas. Não sei o que está acontecendo. Quase toda noite sonho que estou com belos pratos. Antes não sonhava com alimentos, agora sonho demais. Quando acordo sinto o gosto da comida em minha boca. Que decepção, fazem 2 anos que não me alimento pela boca.
Mal consigo me mexer na cama, pois a cada segundo que passa estou ficando mais fraco. Meu pescoço não aguenta o peso da cabeça. Minhas pernas já não tem agilidade pra mudar os passos. Isso me deixa triste, mas estou ciente de que vai piorar. Ainda assim a realidade dói muito. Meus dias já não são os mesmos, com aquela alegria. Somente Deus pode me ajudar. E eu espero Nele.

Aqui, a cada dia que passa, me sinto mais útil. Chegam pessoas de vários lugares para me conhecer e a cada dia uma amizade diferente. Isso me faz muito bem.

Você que lê meu blog, venha me conhecer. Tenho muito o que dizer a você. Você se tornou parte de minha nova vida. Venha fazer perguntas sobre minha doença. Estarei pronto para responder, pois seu tudo sobre ela. Não sinta vergonha. Eu procuro passar um pouco do conhecimento que tenho para o próximo, pois essa doença não é muito conhecida. Estarei esperando por você.

quinta-feira, 3 de junho de 2010


Há alguns dias uma pessoa estudada e formada em Medicina me perguntou se eu me sentia satisfeito com minha situação. Veja bem se isso é o tipo de pergunta a se fazer para uma pessoa acamada. Será que essa pessoa tem a mente boa?
Deus sabe o que faz, Ele me deu esse fardo pesado e tenho que carregar. Ninguém o fará por mim.
Depois perguntou do que eu gostava. Mesmo não interessado na conversa respondi que gostava de Deus em primeiro lugar e depois, das pessoas ao meu redor que cuidam de mim. Entre muitas outras coisas é assim que me sinto.
Tem gente que se preocupa em saber meu passado, mas meu passado não justifica o presente. Quem nunca errou no passado? Errar é humano, importante é não continuar errando. Muitas pessoas podem dizer que só agora falo assim, mas posso dizer que foi preciso ficar nessa situação para que eu enxergasse as coisas de maneira diferente.
Espero que você não precise chegar a esse ponto, pois o que sinto não quero que ninguém sinta. Só sei dizer que a vida oferece muitas coisas maravilhosas, que muitas vezes não enxergamos. Os jovens principalmente, trocam sua liberdade para se aprisionar nas drogas. Perdem sua juventude, deixam seus pais magoados. Mesmo sem saber o que fazer os pais são capazes de tudo para verem seus filhos felizes.

quarta-feira, 2 de junho de 2010


Como pode o homem ser tão ambicioso, gostar de aproveitar da situação dos outros, cheios de egoísmos, são capazes de fazer qualquer coisa para tomar o pão da mão de seu próximo. É raro encontrar pessoas diferentes. Aqui no Hospital que estou agora encontrei pessoas assim. Pessoas diferentes. Pessoas que sorriem comigo, que já choraram comigo. Pessoas que se preocupam em como passei meu dia, se estou sentindo dor ou não. Pessoas que se preocupam em levar ao mundo aí fora o que estou passando para que todas as pessoas conheçam minha realidade. Pessoas que fazem de tudo pra me ver sorrir, pessoas que não descuidam de mim, pessoas que fazem de tudo pra arrancar um sorriso meu.

Estive pensando que sou mesmo um homem de aço, pois para enfrentar essa barra não é nada fácil. Cada dia que se passa sinto que é mais difícil sobreviver. Minhas pernas estão esquecendo meu corpo, minhas mãos estão perdendo a agilidade, tenho um pulmão artificial. Graças a Deus minha mente está bem. Pelo menos por enquanto. Essa doença deveria se chamar parasita, pois suga a seiva e leva à morte. É assim comigo. Essa doença me "abraçou" e está sugando minhas forças até o dia que me levar à morte.
Hoje me sinto um homem artificial, de aço só me resta o peito e dentro dele mora um coração cheio de esperança. Eu que pensava não valer mais nada, mas ainda sirvo de exemplo.