domingo, 1 de agosto de 2010

Sofri uma queda de um andaime e fiquei internado 5 dias. Para minha surpresa e felicidade Luana* e meus dois filhos foram me visitar. Foi um momento tão feliz que não esqueço jamais. Depois disso fui reconquistando a confiança dela e tudo voltou ao normal. Estava sempre presente no dia-a-dia deles.
Paguei muito caro por não pensar no passado.
Hoje me encontro nessa situação e eles querem me levar pra São Paulo.
Penso, porém, não ter esse direito de atrapalhar suas vidas.
Me deixem viver o restante dos meus dias aqui no Hospital, pois aqui eu também tenho uma família.

Fui pra São Bernardo do Campo, pois tinha alguns familiares lá. Isso aconteceu após 12 anos da minha separação de Luana*.
Para minha surpresa, ao chegar na casa de meus tios, eles me disseram que Luana* e meus filhos estavam morando ali perto, no mesmo bairro. Nessa hora meu coração foi a mil. Eles me disseram que Luana* estava casada com outra pessoa. Mesmo assim estava muito feliz com a possibilidade de rever meus filhos. Meu tio não me deixou ir vê-los sem antes avisar Luana*. Ele foi antes conversar com ela. Após muita demora ele voltou dizendo que ela não queria que eu visse meus filhos.
Fiquei 30 dias sem ver meus filhos.
O tempo foi passando e eu a cada dia pensava mais na minha família. A família que perdi. Minha mãe não saía da minha cabeça. A forma como ela morreu. Entrei na bebida e no cigarro. Eu pensava ser esse o melhor caminho, mas estava completamente enganado. Nunca mais vi meu pai nem ouvi notícias sobre ele. Passaram-se 4 anos e eu não tinha noção da vida e nem do que estava acontecendo. Nunca ia a uma igreja e não procurava entender.
Um belo dia acordei e, você sabe, nunca é tarde demais para se arrepender. Assim foi comigo. Me arrependi, levantei a cabeça e toquei a vida pra frente. Deixei de beber, mas continuei fumando.
Arrumei um emprego decente em outra fazenda como operador de colhedeira de grãos. Fui trabalhar no Mato Grosso, em Cuiabá. Lá conheci minha segunda esposa, uma mulher muito bonita, mas mesmo assim não conseguia esquecer Luana* e meus filhos. Devido a isso nada deu certo entre nós. Ficar com uma pessoa pensando em outra.

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Quando estou triste, penso que nasci para sofrer, mas me engano, pois Deus não quer ver ninguém sofrer. Os momentos felizes eu tenho que lembrar também. Quem não tem momentos tristes? Aqui no Hospital tem muita gente que me faz feliz sem saber. Estas pessoas estão contribuindo para que eu veja um mundo diferente. Um simples aperto de mão, um -Bom Dia sorridente faz nascer a vontade de vencer a quem está a desanimar como eu.
Não se esqueça que o segredo de nossa felicidade é amar ao próximo. Você que está se formando na área da Saúde nunca se esqueça de que os pacientes precisam de amor e carinho.

Nessa fazenda trabalhei por 10 anos, ao fazer 20 anos me casei com Luana* e tivemos um casal de gêmeos. Ela era professora na fazenda. Após 3 anos de trabalho passei a ser fiscal da plantação de café. Coordenava 40 pessoas, sempre com muito respeito e dignidade. Nunca me exaltei com ninguém. Depois de 18 anos passei a gerente.
Meu patrão era um homem muito bom. Muitas pessoas boas que cruzaram meu caminho, Deus já as levou. Fico somente na saudade.
Com o passar do tempo Luana foi transferida para a cidade. Compramos uma casa simples pra ela e eu continuei na fazenda, pois meu cargo era de muita responsabilidade com meu patrão. O tempo foi passando e as brigas começaram. Ciúmes de um lado e de outro. Decidimos nos separar. Perdi completamente a cabeça ao perceber que perdi a mulher que amava e meus filhos.
Uma pessoa quando ama só faz loucuras. Saí da fazenda e fui embora pra Argentina tentando fugir da realidade. Mas foi muito pior.
Não aguentei ficar longe dos filhos e voltei para o Brasil. Percebi o quanto foi ruim. Luana tinha se mudado e não deixou contato nenhum.
Eu, que sempre tive a cabeça no lugar, me vi na sarjeta. Me tornei da noite, tentando buscar amor em casas noturnas, de quem eu mal conhecia.
Um dia acordei e percebi que aquilo não era pra mim. Alguém que tinha o respeito de muitas pessoas, estava me tornando um lixo.
Depois de tudo, como iria conquistar alguma coisa?
Dinheiro algum compraria minha felicidade, nem trazer de volta o que eu tinha perdido.
Dizem que existe a felicidade. Eu não a conheci, infelizmente. Vivi sim, momentos felizes, mas não há nada que traga de volta o que perdi. Principalmente minha mãe. Quem tem mãe não sabe o tesouro que têm. Eu perdi minha mãe e feliz nunca mais fui. Sei a dor que é. Se ela estivesse viva, tenho certeza de que ficaria comigo o tempo todo.

domingo, 11 de julho de 2010

Na semana passada passei por uma experiência que só me deu mais vontade de viver, cada dia mais e mais. Em uma simples troca de traqueo*, sofri duas paradas cardiorespiratórias. Quando voltei da primeira, ainda consegui ver as pessoas ao meu redor. Logo em seguia, sofri a segunda. Só sei que quando acordei os anjos do Hospital estavam ao meu redor, dois enfermeiros e o restante da equipe comemorando minha "volta" a este mundo novamente. Para mim, foi uma emoção inexplicável. Eu, que pensava estar sozinho, descobri possuir uma jóia rara: Uma família aqui no Hospital.

*Traqueostomia é um procedimento cirúrgico no pescoço que estabelece um orifício artificial na traquéia, abaixo da laringe, indicado em emergências e nas intubações prolongadas. A traqueostomia é um procedimento frequentemente realizado em pacientes necessitando de ventilação mecânica prolongada. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Traqueostomia

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sobre a minha infância

Meu amigo leitor, muito obrigado pela "carona" que você me dá no seu computador. Durante essa leitura vamos conversar e lhe conto o que me aconteceu.
Fui um menino sem pai e sem mãe. Vivi quase sem ninguém. Depois de brigas houve a separação. Mamãe foi embora num caixão. Disso eu me lembro muito bem.
Com apenas 9 anos começou meu sofrimento. A escola onde eu estudava ficava a 8 km de distância de casa. Tinha que atravessar pastagens com cavalos e bois. Meu pai tinha uma bicicleta, mas mesmo assim, me fazia ir à pé. Eu tinha hora marcada para estar em casa. Se atrasasse a surra era certa.
Após 7 meses da morte de minha mãe, meu pai casou-se novamente. Tudo piorou depois disso, pois qualquer motivo era desculpa para me bater. Aguentei por mais dois anos e fugi de casa com apenas 11 anos.
Cheguei a uma fazenda de café a 30 km dali e pedi para trabalhar e por ali ficar. O dono me perguntou se eu queria trabalhar ou me esconder. Ele já sabia o motivo de eu estar ali. Disse que sabia como o meu pai era e que eu poderia ficar, que ali ninguém iria me bater e que eu também teria meu salário.